Inovação é aposta para transição econômica em Niterói -- e precisa incluir periferias

Cantareira vai sediar polo de interação entre universidade, grandes empresas, start-ups e governo

Atualizado em 25/05/2026 às 14:05, por Ellen Paes.

Inovação é aposta para transição econômica em Niterói -- e precisa incluir periferias

A estação da Cantareira vai sediar o poló de inovação da cidade. Crédito: Sergio Bonelli/Divulgação Prefeitura de Niterói

Além do forte investimento em cinema e em patrimônio histórico, que geram renda e turismo, outra iniciativa importante para diversificação econômica em Niterói está na inovação. A ideia é que o Distrito de Inovação da Cantareira seja um lugar que articule a presença da universidade, de pesquisas de alta performance, de grandes empresas, de start-ups e também do governo, conta a secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação de Niterói, Juliana Benício.

“É o que chamamos de tripla hélice: corporativo, universidade e governo, todos articulados para que os projetos efetivamente saiam do papel”, afirmou a secretária, que está à frente do empreendimento que vai funcionar na Estação Cantareira.
Juliana Benício avalia que esses investimentos são de extrema importância para Niterói, que é uma cidade que precisa fazer uma transição econômica. “A gente precisa efetivamente gerar renda para além do setor de óleo e gás. E a inovação hoje é o caminho para isso.”

Sobre os editais, a secretária esclareceu a primeira fase é fechar parcerias com as empresas âncoras. “Depois que tivermos essas parcerias estabelecidas, vamos abrir o edital". 
 

Juliana Benício ao lado da maquete que ilustra o novo Distrito de Inovação da Cantareira. 

E ele vai ter um custo para as empresas participarem, mas um custo bastante atrativo quando contrabalanceado com os benefícios de estar em um espaço como esse.” O espaço vai contar com formação audiovisual e gastronômica e vai servir também para receber eventos, feiras, shows, etc. A inauguração está prevista para o primeiro semestre de 2026. 

Todos os investimentos que têm sido feitos pela prefeitura de Niterói na Economia Criativa são recebidos de forma positiva por trabalhadores e participantes do setor, mas ainda com alguma expectativa sobre quem de fato vai conseguir acessar os espaços e os financiamentos. Potencial criativo para quem? 

Conversamos sobre esse outros temas  também com a diretora e montadora audiovisual Paula Neto, que nos deu a perspectiva de quem atua na área e na cidade há 30 anos. Confira abaixo os apontamentos: 

Nossa Guanabara - Como você vê esses investimentos que têm sido feitos para revitalizar patrimônios e apoiar projetos audiovisuais, como o NAV?

Paula Neto: Os investimentos realizados pelo NAV são fundamentais e trazem uma perspectiva promissora. A revitalização de patrimônios como o Cinema Icaraí, que fez parte da minha infância e de tantos niteroienses,  por exemplo, representa um avanço importante que ajuda a projetar a cidade no cenário nacional. No entanto, é necessário refletir sobre quem se beneficiará com ações como esta. A democratização do acesso deve ser prioridade. É preciso garantir que os recursos também cheguem a projetos que nasceram e nascem nas periferias, aos realizadores independentes e às iniciativas que dialogam diretamente com a população. Caso contrário, corre-se o risco de reforçar desigualdades históricas em vez de superá-las. Eu sou parte de um projeto chamado Cubango Audiovisual e junto com a agente comunitária, Suellen Abreu, levamos cinema para as comunidades, especialmente para crianças, e constatamos que muitas crianças e adolescentes nunca pisaram em uma sala de cinema, existem algumas que sequer têm acesso à TV aberta em casa. Isso mostra, na prática, a necessidade dessa democratização desses espaços de forma plena.

NG: ⁠Quais você considera os maiores desafios nessa área e em que pontos esses investimentos precisam ter mais atenção?

Paula Neto - Os maiores desafios, na minha opinião, estão na inclusão e na sustentabilidade dessas políticas. Outro desafio é enfrentar preconceitos como o etarismo, que desvaloriza profissionais com experiência acumulada ao longo de décadas. Além disso, é fundamental pensar na formação de novas gerações, incluindo jovens e adultos das comunidades periféricas para que o ciclo de exclusão não se repita. Projetos locais, como iniciativas de exibição e formação audiovisual em favelas, mostram que o audiovisual é uma ferramenta transformadora. O cuidado, portanto, deve estar em fazer com que os investimentos não se restrinjam a vitrines culturais ou produções de grande porte, mas que sejam também instrumentos de inclusão, diversidade e representatividade. O audiovisual em Niterói só alcançará todo seu potencial se os investimentos dialogarem com a realidade da maioria marginalizada. Isso significa construir políticas que olhem para a diversidade, combatam desigualdades e valorizem as vozes que historicamente foram silenciadas, tanto nas telas quanto nos bastidores.