Florestas são mantidas no RJ, mas urbanização contribui para destruir solo, praias e restingas

Zona costeira que vai de Búzios à fronteira com Espírito Santo perdeu um terço do ecossistema de praias e areais, mostra estudo da UFF

Atualizado em 28/05/2026 às 18:05, por Sabrina Lorenzi.

Florestas são mantidas no RJ, mas urbanização contribui para destruir solo, praias e restingas

Praia do Abricó, em Rio das Ostras: perda de faixa de areia causada tanto por avanço do mar quanto do homem. Foto: Gabriel Sales/Divulgação

A urbanização desenfreada é a transformação mais proeminente das últimas quatro décadas no Rio de Janeiro, com desmatamentos não regulamentados, práticas agrícolas inadequadas e incêndios florestais generalizados que intensificaram dramaticamente os processos de erosão do solo e degradação de terras, restingas, praias e outros ecossistemas. Por outro lado, o estado registrou leve aumento da cobertura florestal e um resgate dos manguezais nas regiões analisadas pelo Inventário da Degradação do Solo na Zona Costeira do Rio de Janeiro, produzido pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com apoio da Faperj.

De acordo com o relatório do inventário obtido pelo Nossa Guanabara, a região analisada registrou transformações severas em seus variados ecossistemas, com resultados que destacam "um processo dual de expansão urbana e persistência florestal parcial, acompanhado pelo declínio de zonas úmidas, pastagens e ecossistemas de dunas e areais”. 

“Essas tendências refletem a crescente pressão antropogênica sobre sistemas costeiros frágeis, com implicações para a conservação da biodiversidade, regulação hidrológica e manejo sustentável das terras. As descobertas estão alinhadas com avaliações recentes que enfatizam que a Mata Atlântica continua sendo um dos hotspots de biodiversidade global mais ameaçados, onde o crescimento urbano e a conversão de terras continuam a comprometer a resiliência ecológica”, diz o estudo. 
 

A construção iminente de um resort na preservada restinga de Maricá tem provocado críticas e protestos. Caso reflete intensa urbanização: a área urbana cresceu mais de 6 vezes em 4 décadas. Foto: Sabrina Lorenzi/Nossa Guanabara


Para avaliar a degradação da terra em aproximadamente 22 mil quilômetros quadrados de ambientes costeiros tropicais do estado, pesquisadores adaptaram a ferramenta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) aplicada em regiões semiáridas e mediterrâneas para o bioma Mata Atlântica, especialmente para as zonas costeiras do Rio de Janeiro, que apresentam condições fundamentalmente diferentes, intensificadoras dos processos de degradação das terras. 

“O estudo oferece um modelo científico e replicável capaz de identificar as áreas críticas de degradação, quantificar as mudanças no uso e cobertura da terra ao longo de 40 anos e subsidiar o planejamento municipal e o cumprimento do Código Florestal brasileiro”, sintetiza o professor visitante da UFF e autor da pesquisa, Mohammad Al Abed. 

Com base em imagens de 1984 a 2024, o projeto do departamento de Análise Geoambiental da UFF, mapeou, avaliou e propôs estratégias de gestão para as áreas em que a terra aparece danificada, embora a maior parte do território esteja em condições estáveis.

A região do estado do Rio reúne características únicas que foram consideradas no estudo: severo estresse hidrológico devido a chuvas intensas e prolongadas, resultando em alta erosividade; complexidade geográfica com relevo íngreme, altamente dissecado, e solos intensamente intemperizados que provocam fragilidade ecológica pronunciada que impacta ecossistemas costeiros sensíveis, como manguezais e restingas. 

Todas essas vulnerabilidades naturais são agravadas pela implacável pressão socioeconômica proveniente de uma expansão urbana forte e descontrolada, que impacta diretamente encostas vulneráveis e áreas úmidas, criando um desafio de gestão ambiental único e complexo

Fábio Ferreira, professor no departamento de Análise Geoambiental da UFF


Ferreira explica que a escolha das regiões analisadas têm relação com os altos índices de vegetação. “Começamos a trabalhar nos extremos do estado, trabalhando em escala municipal. O tempo também foi um fator”, respondeu.Veja a seguir algumas das principais transformações em três regiões registradas pelo estudo segundo o recorte do Nossa Guanabara:Expansão urbana

As áreas edificadas aumentaram de 22,82 km2 em 1985 para 80,83 km2 em 2023 na Costa Verde, um aumento de 254,17%. De Maricá a Búzios, esta expansão é de 199%, quase 203 Km2. E de Búzios a São Francisco de Itabapoana a área urbana também mais que dobrou de tamanho (+115,8%, equivalente a 198,98 km2 ).

Formação Florestal

A formação florestal Costa Verde  permaneceu como classe dominante no território da Costa Verde durante todo o período de estudo com aumento de 31,53 km2 (+1,77%) nas últimas décadas consideradas no estudo. 

“Essa estabilidade ressalta a persistência da cobertura florestal apesar das pressões localizadas, uma tendência consistente com descobertas em outros remanescentes de Mata Atlântica no Rio de Janeiro”, afirmam os pesquisadores.

De Maricá a Búzios, houve perda de 7 km2 na cobertura florestal no intervalo entre décadas consideradas, mas com recuperação desde 1995. E de Búzios a São Francisco de Itabapoana o aumento foi da ordem de 12 km2, cerca de 0,8%.

Manguezais

Os manguezais também exibiram um ganho de 32,72%,  2,90 km2, na Costa Verde, “destacando a resiliência deste ecossistema costeiro, conforme relatado em partes do sudeste do Brasil devido a políticas de conservação e regeneração natural”. 

De Maricá a Búzios, as  áreas de manguezal aumentaram 53,13% (+0,34 km2 ), sugerindo também resultados positivos de restauração ou conservação. De Búzios a São Francisco de Itabapoana, a cobertura de manguezal aumentou mais: 67,8% (+3,49 km2 ). 

Praias, Dunas e Areais

Na Costa Verde, o ecossistema de Praias, Dunas e Areais perdeu uma área significativa de 52,16 quilômetros quadrados, redução de 2.84%.

A perda de Maricá a Búzios foi de 13.73%, cerca de 1.79 km2, enquanto de Búzios a São Francisco de Itabapoana, a diminuição é de impressionantes 74.08 km2 – mais de um terço deste ecossistema. Nesta faixa está incluído o Norte Fluminense, com forte processo de erosão das praias que entre suas causas está o assoreamento do Rio Paraíba do Sul, perdendo força para o mar, que engole as praias. a destruição de restingas pelo avanço da especulação imobiliária com forte processo de industrialização também podem explicar o fenômeno.

Restingas

A vegetação de restinga arborizada diminuiu 18,40 km2 (−16,33%) na Costa Verde. 

"Estes ecossistemas costeiros são altamente vulneráveis à expansão urbana e à infraestrutura turística, um padrão observado em toda a Costa Verde e em outros municípios litorâneos do Rio de Janeiro”.

De Maricá a Búzios, a redução foi de -16.47% (8.42km). De Búzios a São Francisco de Itabapoana, a restinga arborizada cresceu 23,0% (+15,28 km2), mas esse aumento foi mais que neutralizado pela redução de 26,30 km2 de restinga herbácea (-5,3%), a restinga de plantas rasteiras que se situam na faixa de areia das praias.